MIX, CANAL e MARGEM

Existe uma armadilha muito comum na Gestão: acreditar que margem é uma característica fixa do produto.

Todavia, não é!

Isso porque o mesmo produto pode ser saudável em um canal, fraco em outro, excelente em uma política comercial e destrutivo em outra.

Esse problema acontece porque muitos empresários continuam analisando desempenho como se a operação fosse uniforme. Mas, ela nunca é!

A margem real é consequência do jeito como o negócio opera e isso muda completamente a leitura de resultado!

Quando olhamos para um negócio, não queremos saber apenas o que ele vende, queremos saber, em verdade: como ele vende, por onde ele vende, em que composição ele vende e a que preço efetivo ele vende. E é com essas respostas que se saberá a “margem de verdade”.

Vamos lá… comecemos pelo mix de produto.

Toda empresa tem produtos que ajudam a margem e produtos que ajudam o volume. Por vezes os dois grupos se encontram, porém, outras tantas, não.

Por isso que está errado tratar todo o portfólio da mesma forma, como se tudo tivesse a mesma “vocação econômica’, uma vez que eles não têm!

Tem produto que gira muito, mas entrega pouco.
Tem produto que vende menos, mas contribui melhor.
Tem produto que funciona bem sozinho e piora quando entra em promoção.
Tem produto que não deveria ser protagonista, mas sim apoio estratégico de mix. Tem item que serve para atrair cliente e tem item que serve para dar resultado.

Quando o empresário não enxerga isso, as campanhas de venda são montadas em cima do que mais sai, ao invés de montar estratégias em cima do que mais contribui. Treinando, assim, o mercado para consumir justamente o que puxa sua margem para baixo.

Agora olhemos para o canal de venda.

Esse ponto é decisivo. O mesmo produto vendido em canais diferentes pode gerar resultados completamente distintos. Um canal pode carregar mais intermediação. Outro pode pressionar mais o preço. Outro pode exigir mais desconto. Outro pode gerar ticket maior, mas com menor contribuição. E há casos em que o empresário acredita estar escalando, quando na prática apenas trocou uma venda mais saudável por uma venda mais pesada.

Aí entra um problema clássico da gestão moderna: crescer no canal errado.

Não estou dizendo que exista canal bom ou ruim por definição. O que existe é canal compatível ou incompatível com a margem que o negócio precisa sustentar. Tem empresa que entra em determinado canal seduzida pelo volume e só depois percebe que aquele crescimento exige concessões demais: preço mais espremido, custo comercial mais alto, dependência maior, menor previsibilidade de resultado.

É aqui que muita empresa confunde presença com rentabilidade: estar em mais lugares nem sempre significa estar melhor!!!

Depois vem o formato da operação.

Uma venda simples, direta e limpa costuma ser muito diferente de uma venda que exige estrutura adicional, manipulação específica, entrega, personalização, embalagem reforçada, atendimento mais demorado ou concessão comercial mais agressiva.

Tudo isso interfere na contribuição final. E mesmo quando o empresário percebe esses custos operacionais, ele nem sempre os conecta corretamente à análise de margem.

Esse é o ponto: a margem não muda só porque o preço mudou. Ela muda porque a estrutura da venda mudou.

E isso nos leva à precificação, pois, preço mal construído é um dos atalhos mais rápidos para matar margem sem perceber.

Muitas empresas precificam para não “assustar o cliente”, para acompanhar o concorrente ou para facilitar volume.

Só que preço não pode ser apenas ferramenta comercial. Ele precisa refletir a lógica econômica da operação. Quando não reflete, acontece o previsível: a empresa vende, gira, trabalha, ocupa time, consome caixa e no final se pergunta: por que o resultado não acompanha o esforço?

A resposta normalmente está na combinação errada entre mix, canal e preço.

E ainda falta falar de desconto e combo, que são dois aceleradores dessa distorção, uma vez que: (1) desconto mal dado é margem entregue voluntariamente e (2) combo mal desenhado é ilusão de ticket médio.

Em muitos negócios, o combo parece brilhante do ponto de vista comercial, mas foi montado juntando itens que já tinham margem apertada com um abatimento adicional em cima. Resultado: vende mais, trabalha mais e sobra menos!

Por outro lado, quando bem desenhado, o combo pode empurrar itens melhores, equilibrar mix, proteger contribuição e melhorar a percepção de valor sem ferir tanto a rentabilidade.

Perceba a diferença: o problema não está na ferramenta, mas, sim, na ausência de leitura econômica.

É por isso que insistimos tanto em uma “tese central” para qualquer empresário: a carga da operação não bate igual em tudo; ela depende do jeito que o negócio foi montado para funcionar!!!

Sem mexer em estratégia tributária nenhuma, a gestão já pode alterar o efeito financeiro dessa carga, bastando escolher mal o mix, insistir no canal errado, montar preço no feeling ou usar desconto como muleta comercial.

É por isso que empresa madura não olha só para vendas totais. Ela desce de nível, separa por produto, compara por canal, analisa por formato, recalcula por política comercial, para só depois concluir onde está a margem real.

Quando isso não é feito, o empresário administra o negócio pela média e a média é perigosa, na medida em que: (1) esconde o produto que destrói resultado, (2) esconde o canal que pesa demais, (3) esconde o desconto que virou hábito, (4) esconde o combo que ficou bonito para vender e feio para lucrar.

No fim, a pergunta certa não é “quanto eu vendi desse produto?” Ela é: depois de considerar o jeito como eu opero, esse produto realmente fortalece ou enfraquece meu resultado?

Essa resposta vale ouro! Porque negócio que entende isso para de perseguir volume cego e começa a perseguir contribuição inteligente.

E é nesse ponto que margem deixa de ser discurso bonito e passa a virar gestão de verdade.

Vamos com tudo!!!

Nikolas Belfort

Nikolas Belfort é empresário, palestrante e especialista em gestão financeira.

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