Provisão e Caixa

Existe uma postura que parece natural, mas que destrói a gestão por dentro: agir como se determinados riscos não existem, só porque ainda não bateram à porta. E muitas empresas operam assim!

Enquanto a obrigação não venceu, enquanto a cobrança não apertou, enquanto o desembolso não se materializou, o empresário escolhe tocar a operação como se estivesse tudo sob controle.

O problema é que caixa não é movido por desejo. Caixa é movido por realidade. E a realidade mal lida cobra a conta cedo ou tarde.

É por isso que defendemos um ponto que tem espaço na “gestão madura”: provisionar não é pessimismo. Provisionar é seriedade!

Quem provisiona não está “atraindo problema”. Está, na verdade, reconhecendo que nem toda pressão financeira nasce do que já venceu, pois muitas começam no que já pode ser visto, mesmo que ainda não tenha explodido.

E esse ponto é importante porque boa parte dos empresários foi treinada a olhar apenas para o presente imediato: olhar o saldo do banco, olhar o que entrou na semana, olhar o que vai vencer amanhã, olhar o faturamento do mês e, assim, toca a vida.

Só que “gestão madura” não se faz apenas olhando o que já aconteceu. Antes, ela também exige leitura sobre o que pode pressionar a operação mais adiante. E é aí que entra a provisão.

Provisionar significa trazer para a consciência gerencial aquilo que pode comprometer a saúde financeira do negócio. Significa não deixar o caixa viver uma fantasia de conforto que talvez não exista.

Na prática, a empresa que não provisiona costuma viver uma espécie de calmaria artificial, na medida em que o DRE parece melhor, a sensação de lucro parece maior, o fôlego do caixa parece mais confortável e, com tudo isso, o dono se sente mais seguro para decidir.

Só que essa segurança pode estar construída em cima de uma leitura incompleta do negócio que, por sua vez, é uma das formas mais perigosas de fragilidade empresarial, pois ela dá confiança para quem deveria estar em alerta.

Quando falamos em provisão, não estamos falando de transformar o negócio em um ambiente paranoico, travado. Estamos falando de fazer perguntas maduras sobre o que pode pressionar o caixa nos próximos períodos? E essa pergunta parece simples, mas muda tudo.

Porque empresa que provisiona bem passa a operar com mais verdade. Ela para de tomar decisão com base em um número inflado, reduz a chance de distribuir o que ainda não deveria, evita crescer em cima de uma folga que talvez não exista e melhora a leitura do caixa. Ela amadurece.

E maturidade financeira vale muito, principalmente em operações que vivem sob pressão, giro alto e margens apertadas.

Isso reduz improviso. E negócio que reduz improviso ganha força.

Há um erro comum praticado com frequência: empresário que não provisiona porque acredita que isso “estraga o número”. O que é verdade!

Porém, esse estrago acontece sobre um número fantasioso frente à realidade econômica no negócio. Mas, em contrapartida, melhora o seu número verdadeiro. E o número verdadeiro é sempre o melhor parâmetro para decidir. Esse é o ponto central: o número bonito demais pode dar conforto emocional, mas o número verdadeiro dá direção certa.

No mundo empresarial, direção vale mais!

Por isso, a provisão, quando bem construída, não existe para assustar o empresário. Existe para protegê-lo da própria ilusão.

Isso tem um valor enorme porque toda empresa tem momentos em que parece estar respirando melhor do que realmente está. E, quando a gestão não reconhece isso a tempo, acaba assumindo compromissos, acelerando decisões ou relaxando controles justamente na hora errada.

No fim, provisionar é um ato de respeito com a realidade da empresa.

Respeito com o caixa. Respeito com o resultado. Respeito com a previsibilidade. Respeito com a continuidade do negócio.

Esse é um ponto que precisa ser dito com clareza: empresário forte não é o que ignora risco para parecer corajoso. Empresário forte é o que reconhece a pressão possível, organiza a informação e decide com base em lucidez.

No curto prazo, a provisão pode deixar o número menos bonito. Mas, no médio e no longo prazo, ela evita que a empresa viva de susto, de improviso e de autoengano. E isso é “gestão madura”!

Vamos com tudo!!!

Nikolas Belfort

Nikolas Belfort é empresário, palestrante e especialista em gestão financeira.

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